O encontro reuniu pesquisadores em torno da apresentação de Neil Safier, intitulada “Amazônia(s) no Mundo – do período colonial até o nosso presente”, e discutiu as múltiplas perspectivas e arbitrariedades associadas ao termo Amazônia. Foi destacado que o conceito não possui uma definição fixa, variando conforme os contextos históricos, as escalas espaciais e temporais e os olhares de quem o utiliza. A ideia de Amazônia é, portanto, plural e fluida, construída a partir de narrativas externas e internas que refletem interesses políticos, econômicos e culturais distintos. Apesar disso, a utilização do termo, no âmbito do projeto, assume deliberadamente sua arbitrariedade como forma de incorporar sua complexidade histórica e dar conta de suas múltiplas camadas de significado.
Um ponto central da discussão foi a desconstrução da visão de um território isolado. Durante o período colonial, a Amazônia já era profundamente conectada a circuitos internacionais por meio de produtos de sua flora e fauna nativa, além de alimentar imaginários globais sobre o território. Mapas do século XVI, relatos de viagem e outras fontes históricas, como as produzidas inclusive por otomanos e alemães, entre muitas outras, são testemunhos desse intenso diálogo entre o local e o global. Contudo, essas narrativas muitas vezes não dialogam com as experiências vividas pelas populações locais, criando um distanciamento entre as representações externas e a realidade amazônica.
A análise da cultura material surge, assim, como uma via promissora para compreender essa relação entre o local e o global. Objetos amazônicos, seus contextos originais, as formas como circularam pelo mundo e os lugares onde se encontram hoje são vistos como testemunhos dos processos históricos e da construção de imagens sobre a Amazônia. Nesse sentido, Neil propõe-se a estudar coleções amazônicas em instituições museológicas de Lisboa, Hamburgo, Rio de Janeiro e Madri e avaliar o modo como esses objetos alimentaram diferentes percepções ao longo do tempo e contribuíram para cristalizar imaginários sobre a região.
Outro aspecto evocado foi a articulação entre arte e o conceito de artivismo, proposto por Vicenzo Trione, como ferramentas para pensar alternativas de futuro. A arte contemporânea, especialmente indígena, tem emergido com uma proposta de refletir sobre presente, passado e futuro a partir dos desafios enfrentados pela humanidade. Nesse sentido, a ideia de “futuro ancestral”, que resgata conhecimentos e perspectivas tradicionais para enfrentar os cenários de crise global, alimenta a reflexão de pesquisadores que buscam também contribuir para uma visão alternativa de futuro, conciliando historicidade, cultura material e práticas artísticas para compreender a Amazônia de forma ampla e conectada.
O encontro concluiu que a Amazônia, mais do que um espaço geográfico, é um conceito carregado de significados variados, construído ao longo do tempo e em diferentes contextos. A abordagem interdisciplinar, que combina história, geografia, arte e cultura material, entre outras perspectivas, foi vista como essencial para explorar a riqueza desse tema e propor novas formas de pensar a relação entre o território, seus habitantes e o mundo globalizado.