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O Atlas

Construindo o Atlas da Amazônia Colonial: uma visão metodológica

Atualizado em 16 de dezembro de 2025

O Atlas da Amazônia Colonial é um projeto de humanidades digitais que parte de dados arqueológicos e históricos para consolidar e divulgar informações sobre a ocupação e a organização territorial indígena na Amazônia durante o período colonial.

Alicerçado nos princípios da interdisciplinaridade e da ciência aberta, o Atlas se beneficia de conhecimento já produzido, partindo de bancos de dados preexistentes para gerar novas análises e, por fim, compartilhar seus próprios dados, contribuindo para o avanço do conhecimento coletivo.

O Atlas está em processo de elaboração, constituído por diversas etapas, e representa um esforço metodológico complexo.

1.
ETAPA INICIAL

Agregação e tratamento dos dados-fonte

O primeiro passo na construção do Atlas da Amazônia Colonial foi a seleção, a filtragem e a integração de diversos bancos de dados preexistentes, que juntos formam o alicerce sobre o qual todas as análises subsequentes estão sendo construídas.


1.1. Os pilares iniciais

O ponto de partida do projeto foi a unificação e o tratamento de dois bancos de dados consolidados, que forneceram a base consolidada de informações geoespaciais e históricas.

 

  • AmazonArch

      • Descrição: Uma rede colaborativa que compartilha dados georreferenciados sobre sítios arqueológicos em toda a região amazônica.
      • Conteúdo original: Mais de 12.000 sítios arqueológicos na bacia amazônica, com coordenadas geográficas, datações cronológicas e, em alguns casos, informações ecológicas e arqueobotânicas.
      • Responsáveis: Eduardo Kazuo Tamanaha, Fernando Ozorio de Almeida, Claide de Paula Moraes, Umberto Lombardo, Thiago Trindade e André Junqueira.

 

  • Vilas Indígenas Pombalinas (VIP)

      • Descrição: Uma iniciativa que conta com inúmeros colaboradores, focada na sistematização de dados sobre a territorialização de povos indígenas durante as reformas pombalinas, a partir de 1755. Condensa dados que permitem identificação e localização geográfica, dados cronológicos, alguns dados sobre população e dados políticos e socioculturais.
      • Conteúdo original: Informações detalhadas sobre 279 povoações da América portuguesa, entre vilas, lugares, missões, aldeamentos.
      • Responsáveis: Vânia Losada Moreira, João Paulo Peixoto Costa, Estêvão Martins Palitot e Soraia Sales Dornelles.

     

1.2. Filtragem e integração de dados

Para garantir que os dados servissem diretamente aos objetivos do Atlas, foi necessário aplicar um processo de filtragem e seleção, focando nas informações mais pertinentes ao período colonial e a seus antecedentes diretos.

  • Para o AmazonArch: O banco de dados original abrange um espectro temporal de até 15.000 anos. Para criar um diálogo mais eficaz com as fontes históricas, optou-se por selecionar apenas os sítios com datações que indicam ocupações entre 1000 d.C. e 1800 d.C. Essa escolha se justifica por duas razões principais: foi por volta do ano 1000 d.C. que a configuração sociocultural encontrada pelos europeus começou a se estabelecer, e essa janela temporal mais ampla permite avaliar processos de longa duração, como demografia e mobilidade. Foram feitas exceções estratégicas para sítios com Terra Preta Indígena (TPI), cuja estabilidade garante uma fertilidade duradoura que a torna um recurso relevante até o período colonial, justificando sua inclusão independentemente da data de sua formação original, e para sítios com estruturas de terra, cujas datações conhecidas se concentram em um período próximo ao colonial.

 

  • Para o VIP: O trabalho inicial concentrou-se em um recorte espacial que abrange as capitanias do Maranhão, Grão-Pará e Rio Negro, com a possibilidade de expansão futura para outras áreas. Focamos em dados de localização, cronológicos, de população, além de aspectos como trabalho, descimentos, deslocamentos.

1.3. A incorporação de novas fontes

Para enriquecer o panorama histórico e ambiental, o projeto está progressivamente integrados integrando outros bancos de dados, cada um adicionando uma nova dimensão de análise. Alguns exemplos:

  • Banco de dados de aldeamentos e missões: Sob a responsabilidade de Fernanda Bombardi, este banco incorpora informações sobre missões religiosas e aldeamentos do período anterior às reformas pombalinas (anteriores a 1755).
  • Banco de dados de arqueobotânica: Um levantamento, sob a responsabilidade de Laura Furquim, das plantas identificadas em sítios arqueológicos amazônicos desde o Holoceno Inicial. O banco organiza informações por Famílias, Gêneros e Espécies vegetais, incluindo os proxies utilizados para identificação, os contextos arqueológicos (datações, tipo de solo, cultura material) e o habitat, permitindo análises complexas sobre manejo e domesticação de recursos.
  • Banco de dados próprio sobre relatos de viajantes: Uma iniciativa interna para mapear localidades, povos indígenas e referências botânicas presentes nos relatos de viajantes dos séculos XVII e XVIII.
  • Banco de dados sobre florestas antropogênicas: Planejado para futura incorporação, este banco de dados trará informações sobre a influência humana na formação das florestas amazônicas, baseado nos trabalhos de Carolina Levis.

Após coletar, filtrar e compatibilizar esses múltiplos conjuntos de informações, o próximo passo metodológico está sendo organizá-los de forma lógica para permitir análises espaciais e temáticas.

2.
Da informação bruta ao conhecimento estruturado

A criação de camadas temáticas

Após a coleta e tratamento, as informações estão sendo organizadas em “camadas temáticas”, que constituem a estratégia central do projeto. Cada camada agrupa dados de uma mesma natureza temática (ex: economia, demografia, arqueologia), transformando-os em conjuntos de informações coesos. Essa abordagem permite não apenas visualizar dados específicos de forma clara, mas também realizar cruzamentos e sobreposições, que são a base para a geração de novo conhecimento.

2.1. Análise das camadas essenciais de território e população

Até o momento, três camadas se destacam como pilares para a análise da ocupação territorial e populacional na Amazônia colonial:

  • Camada 1: Vilas Indígenas Pombalinas
    • Objetivo: Mapear a localização precisa, estabelecer a cronologia de fundação e compreender a produção econômica das vilas criadas durante o período pombalino. Esta camada permite análises espaciais sobre a distribuição do poder colonial e das atividades produtivas indígenas.

  • Camada 2: Sítios Arqueológicos
    • Objetivo: Seu objetivo é estruturar os dados em quatro classes distintas: localização, temporalidade (com datações absolutas e relativas), características arqueológicas (tipologia, função, cultura material) e contexto ambiental. Essa estrutura permite uma análise multifacetada da ocupação humana pré-colonial e de sua relação com a paisagem.

  • Camada 8: Estimativa Populacional das Vilas Pombalinas
    • Objetivo: Focar nos aspectos demográficos das vilas, como total populacional e distribuição étnica, permitindo análises sobre densidade, transformações sociais e o impacto das políticas coloniais sobre as populações indígenas.

A compatibilidade técnica dessas camadas permite futuras análises integradas, como correlacionar a produção econômica de uma vila com sua composição demográfica e étnica.

Com os dados devidamente coletados, tratados e organizados em camadas temáticas, o projeto avança para sua etapa final: a geração de mapas analíticos.

3.
A visualização como análise

O objetivo é que, no Atlas da Amazônia Colonial, os mapas sejam a principal ferramenta de análise. Eles serão o meio pelo qual os dados estruturados em camadas são interrogados, combinados e transformados em respostas visuais para questões de pesquisa complexas. O conhecimento será gerado tanto a partir da análise de camadas individuais quanto, e principalmente, da sobreposição de múltiplas camadas.

3.1. Análises a partir de camadas específicas

Cada camada, por si só, possui um imenso potencial analítico, permitindo responder a um conjunto específico de questões sobre o território e suas populações.

  • Questões sobre as Vilas Pombalinas:
    1. Como as povoações indígenas estavam distribuídas geograficamente na região durante o período pombalino?
    2. Quais capitanias (Grão-Pará, Rio Negro, Maranhão) apresentavam a maior concentração de vilas e aldeamentos?
    3. Quais eram as principais atividades econômicas (ex: extrativismo, agricultura) de cada povoação e como se distribuíam pelo território?
    4. Como se deu o processo de fundação dessas vilas ao longo do tempo, revelando o avanço da política colonial?

  • Questões sobre os Sítios Arqueológicos (AmazonArch):
    1. Como a distribuição dos sítios pré-coloniais se relaciona com os padrões de ocupação colonial?
    2. Quais áreas tinham maior densidade populacional antes da colonização?
    3. Onde se concentravam as áreas com Terra Preta Indígena (TPI) e como isso pode ter afetado o interesse dos colonizadores por certas regiões?
    4. Existem padrões de localização dos sítios (próximos a rios, em áreas elevadas) que podem ter influenciado os padrões de ocupação colonial?

3.2. Análises por sobreposição de camadas

É na sobreposição de diferentes camadas que os descobertas mais profundas podem emergir, revelando relações que não seriam visíveis de outra forma.

  • Exemplo 1: sítios arqueológicos e povoações coloniais Ao sobrepor o mapa de sítios arqueológicos (Camada 2) com o de vilas e missões (Camadas 1 e 3), é possível investigar visualmente a continuidade ou a ruptura nos padrões de ocupação territorial. Questões como “As povoações coloniais foram estabelecidas sobre ou próximas a grandes centros populacionais pré-coloniais?” podem ser diretamente exploradas, revelando estratégias coloniais de apropriação ou apagamento de territórios.

  • Exemplo 2: atividades econômicas e tipos de sítios arqueológicos A sobreposição do mapa de produção econômica das vilas pombalinas (Camada 1) com a distribuição de sítios com TPI (Camada 2) pode revelar mudanças nos padrões de uso do solo. Este cruzamento permite analisar se as atividades agrícolas coloniais se beneficiaram da fertilidade de solos antropogênicos criados por populações pré-coloniais, evidenciando uma conexão de longa duração entre o manejo indígena da paisagem e a economia colonial.

Um Atlas em contínua construção

A criação do Atlas da Amazônia Colonial representa um esforço metodológico complexo que se inicia na agregação de dados de fontes diversas, passa pela organização criteriosa desses dados em camadas temáticas e culminará na geração de mapas analíticos capazes de revelar novas facetas da história amazônica. 

Quando disponível, o Atlas pretende ser uma plataforma de conhecimento aberta, interdisciplinar e em contínua construção, fundamental não apenas para a compreensão acadêmica da história amazônica, mas também como um recurso essencial para o suporte aos direitos e à memória dos povos indígenas na atualidade.

Investigamos o impacto socioambiental do colonialismo moderno na amazônia

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Esta página web foi realizada com o auxílio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O conteúdo é de responsabilidade do projeto “Entre um passado profundo e um futuro iminente: ação humana e impacto ambiental do colonialismo moderno na amazônia (séculos XVI-XVIII)”, e de modo algum se deve considerar que reflita a posição da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Auxílio à Pesquisa – Proposta Inicial Processo n. 2022/02896-0.

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