Notas

Ofícios indígenas entre
a escravidão e a liberdade

26 de julho de 2026 | 8h00 às 9h30

No seminário de junho, foi debatida a pesquisa de Marcela Gomes Fonseca, doutoranda bolsista do Projeto Amazônia Colonial. No ensaio apresentado, a estudante apresentou uma análise sobre os ofícios de trabalho indígena no Estado do Maranhão e Grão-Pará entre os séculos XVII e XVIII, assumindo uma perspectiva que transcende a dicotomia tradicional entre escravidão e liberdade. Além disso, a pesquisadora examina, através dos assentos da Junta das Missões, como os trabalhadores indígenas não eram meros executores de tarefas braçais, mas sujeitos que negociavam seus ofícios, influência política e autonomias. Particularmente relevante é a identificação de uma “agência técnica indígena” que permitia aos nativos mobilizar seus conhecimentos especializados – desde a navegação e manejo de armas de fogo até técnicas de processamento de alimentos – como moedas de troca centrais no cotidiano colonial. O trabalho demonstra que a diversidade de ofícios exercidos por indígenas foi fundamental para a sustentação estrutural da colônia amazônica, conectando dinâmicas dos sertões com as vilas e cidades através de redes complexas de trabalho coercitivo e negociado.

A discussão suscitada pela apresentação revelou desafios para a continuidade da pesquisa em consonância com o Projeto coletivo. Em primeiro lugar, emerge a necessidade de qualificar a identidade dos sujeitos trabalhadores: não se trata apenas de “índios”, mas de uma multiplicidade de categorias jurídicas e sociais (forros, libertos, prisioneiros, cativos, mestiços, pretos e africanos) que coexistiam no mundo do trabalho colonial. A pesquisa precisa avançar na diferenciação entre ofícios praticados por homens, mulheres e crianças, reconhecendo que as disputas na Junta das Missões frequentemente envolviam mulheres e seus filhos em condições de trabalho específicas. Além disso, é fundamental expandir o corpus documental além dos assentos da Junta das Missões, incorporando testamentos, petições e documentação do Arquivo Ultramarino, de São Luís e de Belém, para coletar dados que permitam uma compreensão mais abrangente das dinâmicas laborais. Conforme apontado durante o seminário, é importante sistematizar e colecionar esses dados de forma estruturada, transformando a pesquisa em um projeto de humanidades digitais que possa integrar as múltiplas perspectivas historiográficas.

Por fim, a discussão evidenciou a importância de qualificar as condições jurídicas do mundo amazônico colonial, compreendendo as múltiplas formas de trabalho para além da dicotomia escravo/livre. Juridicamente, há distinções entre cativeiro e escravidão que socialmente se mesclam, levando os sujeitos a recorrer à Junta das Missões. A pesquisa deve também investigar o que significava trabalho para as próprias sociedades indígenas, suas dinâmicas, ritmos e formas específicas, diferenciando entre o mundo indígena aldeado, onde se desenvolviam ofícios especializados, e o mundo indígena considerado “bárbaro” e “selvagem” pelos colonizadores. Neste sentido, a integração com o Projeto Amazônia Colonial, que propõe uma abordagem multidisciplinar conectando arqueologia, história e conhecimentos tradicionais, oferece oportunidades frutíferas para compreender não apenas a diversidade de saberes indígenas, mas também como esses conhecimentos foram apropriados, transformados e mobilizados no contexto colonial, contribuindo para uma historiografia renovada da Amazônia colonial que supere paradigmas tradicionais.
Investigamos o impacto socioambiental do colonialismo moderno na amazônia

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Esta página web foi realizada com o auxílio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O conteúdo é de responsabilidade do projeto “Entre um passado profundo e um futuro iminente: ação humana e impacto ambiental do colonialismo moderno na amazônia (séculos XVI-XVIII)”, e de modo algum se deve considerar que reflita a posição da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Auxílio à Pesquisa – Proposta Inicial Processo n. 2022/02896-0.

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