10h ÀS 11h15: Conhecimentos indígenas: diálogos entre história e arqueologia
Contos vegetais sobre a Arqueologia do Sudoeste Amazônico: um olhar para a alimentação pré-colonial
Laura Furquim, Doutoranda em arqueologia no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP
O Sudoeste Amazônico é uma área de longínquas e diversificadas relações entre pessoas e plantas, desde o início de sua ocupação há cerca de 11.000 anos atrás. Através dos vestígios arqueobotânicos e orgânicos desta região, principalmente das plantas hiperdominantes, é possível recontar narrativas que contém com implicações para a compreensão dos processos de domesticação de plantas e paisagens, da antropização do solo, da demografia regional e das tradições alimentares. Nesta apresentação, buscarei me valer do histórico de longa-duração desta região, para refletir acerca da diversidade das formas de cultivo indígena às vésperas da invasão européia, à luz do debate sobre a intensificação da agricultura. A partir dos “pães-de-índio”, buscarei também abordar a relação entre a alimentação indígena, a circulação territorial e as tecnologias de processamento e armazenagem de alimentos. Os pães são vestígios alimentares que resistem ao tempo e à colonização, funcionando como uma “síntese” das transformações alimentares no que tange a variedade de plantas utilizadas, a importância das espécies silvestres. Por fim, irei focar nas bacias dos rios Madeira e Purus, buscando nos relatos históricos do período colonial narrativas que informem sobre mudanças dos hábitos alimentares e das territorialidades indígenas pré-coloniais. Para tal, iremos integrar dados de sítios arqueológicos com sequências de Terra Preta Antropogênica (TPA), como Teotônio em Rondônia, bem como solos não-TPA, como Sol de Campinas no Acre e etnografias de comunidades Arawak, Tukano e Pano para construir pontes cronológicas que possibilitam uma análise comparativa das interações humanas com as plantas nos períodos pré-colonial e colonial e seus impactos transformadores na paisagem amazônica. Essa abordagem busca abarcar uma história entrelaçada entre pessoas e plantas na Amazônia brasileira, que podem informar discussões contemporâneas sobre sustentabilidade, uso da terra, conservação da biodiversidade e segurança alimentar.
Entre roçados e passados: a Amazônia colonial e os vestígios arqueológicos
Talles Manoel, Doutorando em História na Unicamp
Na colônia portuguesa do Estado do Maranhão e Grão-Pará, foi desenvolvida e aplicada, entre os séculos XVII e XVIII, uma produção agrícola na qual eram apropriados e intensificados costumes, estratégias e técnicas de cultivo com origens indígenas. Nessa produção, usava-se da experiência e de conhecimentos dos povos da floresta para se cultivar alimentos, produzir os chamados “gêneros do sertão”, ou ainda para reproduzir as mesmas plantas que já eram cultivadas nas terras do litoral do Estado do Brasil – como a cana-de-açúcar e o café. Apesar dessa característica, as particularidades da agricultura amazônica foram, por muito tempo, ignoradas ou tratadas como uma questão de menor importância. Isso por essas características não coincidirem com o que se esperava de uma produção colonial, a qual tinha como pressuposto o modelo da plantation – com monocultura, trabalho escravo, e plantio em grandes propriedades. Por não dar conta de explicar as especificidades da agricultura colonial amazônica, a abordagem nos critérios da plantation foi influente, por muito tempo, na promoção de um apagamento nas questões que envolviam o uso do trabalho indígena em contexto colonial, sobretudo no que diz respeito a divisão de serviços agrícolas entre diferentes perfis de trabalhadores, seja em critérios de gênero, de idade, ou de liberdade. Afinal, entendia-se que esses nativos estavam sendo aplicados em meras atividades rudimentares, nas quais não se produziria nada além do que era necessário para a subsistência deles. Diante desse interesse em entender os limites de um modelo, a apresentação pretende elucidar como os estudos arqueológicos nos possibilitam questionar o pressuposto da plantation no âmbito da História da Amazônia portuguesa. Além disso, pretende-se evidenciar como o ambiente também é capaz de nos apresentar o passado, com uma história indígena que precede e percorre a colônia, onde se revela e são desenvolvidas complexas redes em que se circulavam plantas e saberes. Nesse sentido, pretende-se estabelecer um diálogo interdisciplinar entre a Arqueologia e a História, que nos permita repensar o passado da Amazônia, sobretudo para o período colonial.
11h15 às 12h: Comentários
Antonio Guerreiro (IFCH/Unicamp)
Rafael Chambouleyron (UFPA)