Notas

Relações passadas e presentes dos Makushi

29 de maio de 2026 | 9h00 às 11h00

O seminário de maio recebeu James Andrew Whitaker, professor assistente de Antropologia da Universidade do Sul do Mississippi e pesquisador honorário da Universidade de St. Andrews, para uma apresentação centrada nas relações históricas e contemporâneas entre os Makushi da Guiana e os chamados “de fora” — colonizadores, missionários e, mais recentemente, turistas.

Com base em extenso trabalho de campo realizado entre 2012 e 2021 nas aldeias de Surama e Yupukari, aliado à pesquisa em arquivos históricos no Reino Unido e na Guiana, Whitaker apresentou as duas questões centrais que orientam sua investigação: de que modo a memória histórica, a ecologia histórica e as estruturas ontológicas ligadas ao xamanismo iluminam as relações passadas e presentes dos Makushi com os de fora; e como os Makushi mobilizam a hospitalidade para produzir e administrar relações de mutualidade com esses atores em diferentes contextos históricos e contemporâneos.

O núcleo de sua argumentação sustenta que os Makushi, marcados por séculos de experiências de escravização — das tropas de resgate e entradas brasileiras dos anos 1730 às incursões coloniais britânicas do século XIX —, desenvolveram sofisticadas estratégias de hospitalidade para atrair aliados protetores e reduzir assimetrias nas relações com estrangeiros. Whitaker demonstrou que tais estratégias, longe de expressarem passividade ou submissão, constituem formas de agência histórica ativa e intencional. No contexto contemporâneo do ecoturismo, os Makushi de Surama aplicam princípios semelhantes. Líderes turísticos são identificados, por meio de categorias associadas ao sistema de pensamento xamânico, como “mestres-proprietários” e recebem uma hospitalidade intensiva destinada a transformá-los em yakos (cunhados, amigos, parceiros). Desse modo, estabelecem-se relações de reciprocidade e mutualidade que contribuem para a continuidade dos recursos externos dos quais a comunidade depende. Essa perspectiva contrasta com concepções ocidentais que entendem o turismo sobretudo como instrumento de desenvolvimento econômico ou de conservação ambiental.

A contribuição original de Whitaker reside na articulação entre debates clássicos da etnologia amazônica — especialmente aqueles relacionados ao animismo, ao perspectivismo e às relações simétricas e assimétricas — e a antropologia do turismo. Ao demonstrar que as ontologias indígenas moldam e redefinem ativamente os encontros turísticos, o pesquisador questiona pressupostos ocidentais tanto sobre o significado do turismo quanto sobre a suposta passividade dos povos indígenas diante de forças externas.

A apresentação teve como base dois trabalhos recentes: o artigo Shamanic Alliance in the Touristic Borderzone (Journal of Latin American and Caribbean Anthropology, 2024) e o capítulo Makushi Alliances in Guyana: Partnerships against Predation (2025). Este último integra o volume coletivo Indigenous Alliance Making: Histories of Agency in Colonial Lowland South America (University of Arizona Press, 2025), coorganizado por Whitaker e Mark Harris, no qual a análise é ampliada para outros contextos amazônicos.

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